Em entrevista ao Política ao Ponto no espaço Fliquinha, escritor destacou a leitura como direito da infância e instrumento de conexão com a natureza
A literatura e a arte exercem um papel insubstituível na formação humana e na construção de caminhos para a superação da violência social. A reflexão foi apresentada pelo escritor, professor e ativista indígena Daniel Munduruku em entrevista exclusiva concedida à equipe do Política ao Ponto nesta sexta-feira, 6 de novembro, durante a realização da Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica), no Recôncavo Baiano. Presente na programação da Fliquinha, voltada ao público infantil, o autor ressaltou que a imaginação é indispensável para que as novas gerações aprendam a interpretar a realidade e a resistir a injustiças históricas.
Para Munduruku, a experiência literária não se limita ao entretenimento, funcionando como antídoto contra a desumanização e as imposições tecnológicas que ditam falsas necessidades: A leitura, ela é fundamental pra gente se construir, né? Não tem possibilidade da gente viver no mundo sem fantasia, sem romances, sem histórias tristes, histórias felizes. Porque a realidade que a gente vive, ela é feita disso. Então a literatura, ou a arte em geral, ela permite que a gente compreenda um pouco esse mundo e dê respostas criativas pra este mundo. Isso vale inclusive no enfrentamento à violência e o mecanismo de injustiças, enfrentamento às guerras, enfrentamento à tecnologia.
O autor enfatizou que o acesso aos livros precisa ser assegurado como um direito inegociável da infância, chamando atenção especial para o avanço da produção literária indígena no país. Segundo ele, as narrativas originárias oferecem um modelo de pensamento alternativo ao ritmo predatório da sociedade contemporânea: Isso é um ponto importante, é pensar como o direito à leitura que as crianças têm. E, claro, e também o direito a uma literatura escrita por todas as autorias indígenas, que trazem nas suas abordagens também formas diferentes de olhar para o mundo, que não é apenas uma abordagem consumista, uma abordagem individualista, né, egoísta, mas é também uma visão sistêmica, de coletividade, de pertencimento.
Ao concluir sua análise, Daniel Munduruku pontuou que o resgate da sensibilidade ambiental e coletiva presente nas obras dos povos originários é determinante para amenizar conflitos e frear agressões sistemáticas: A literatura escrita por indígenas traz uma lógica que é ditada pela natureza. E essa natureza, da qual nós fazemos parte, ela nos cobra sempre respeito e nos cobra atitudes mais positivas e propositivas, para que a vida da gente fique mais suave, né? E a gente possa ter, de fato, menos preconceito, menos estigmas, menos violência contra as populações indígenas.