Jornalista, publicitário e secretário de Comunicação de Camaçari analisa a consolidação de bancadas conservadoras no estado a partir da clássica teoria da opinião pública de Elisabeth Noelle-Neumann.
A expressiva performance eleitoral de candidaturas alinhadas ao campo chamado por muitos como “extrema-direita” na Bahia, nas eleições gerais de 2026, foi analisada sob uma perspectiva técnico-acadêmica pelo estrategista político Geraldo Honorato. Jornalista, publicitário e titular da Secretaria de Comunicação (Secom) de Camaçari, Honorato apontou que a mecânica eleitoral observada nas urnas baianas dialoga diretamente com o conceito sociológico da Espiral do Silêncio.
A formulação teórica, concebida pela cientista política e pesquisadora alemã Elisabeth Noelle-Neumann em sua obra clássica A Espiral do Silêncio: Opinião Pública – Nosso Tecido Social (The Spiral of Silence: Public Opinion – Our Social Skin, 1984), estabelece que os indivíduos monitoram constantemente o clima de opinião predominante em seu ambiente social. Quando percebem que suas convicções pessoais divergem da narrativa hegemônica ou dominante de um determinado território, esses eleitores tendem a silenciar publicamente seus posicionamentos por receio de isolamento, censura moral ou exclusão social.
No entanto, conforme demonstra a literatura, esse retraimento no debate aberto não significa renúncia ideológica; pelo contrário, o posicionamento permanece latente e se expressa com exatidão no segredo da cabine de votação.
A manifestação da teoria no cenário baiano
Na leitura de Geraldo Honorato, o contexto sociopolítico da Bahia — estado governado pelo Partido dos Trabalhadores há duas décadas consecutivas e onde o lulismo possui hegemonia cultural e discursiva — cria um ambiente no qual eleitores com inclinações conservadoras tendem a não externalizar sua preferência em rodas sociais cotidianas ou diante de abordagens tradicionais de sondagem pública.
Essa blindagem comportamental gera uma falsa impressão de homogeneidade política em favor da esquerda. Na prática, contudo, esse eleitorado silencioso articula-se por meio de canais fechados, comunidades segmentadas e redes digitais, garantindo uma mobilização disciplinada e orgânica no dia do pleito.
O reflexo desse fenômeno ficou evidente nos números consolidados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Mesmo com as expressivas vitórias de Jerônimo Rodrigues (PT) para o Governo do Estado e das candidaturas majoritárias de Lula, Jaques Wagner e Rui Costa, o Partido Liberal (PL) e seus aliados registraram recordes históricos de votação proporcional em território baiano:
- Assembleia Legislativa da Bahia (AL-BA): O deputado estadual Diego Castro (PL) consolidou-se como o segundo nome mais votado de todo o estado, com 160.302 votos, impulsionando a bancada do partido ao lado de nomes expressivos como Cinthya Marabá (89.063 votos) e Samuel Júnior (87.151 votos).
- Câmara dos Deputados: Na disputa federal, candidaturas emblemáticas da direita alcançaram patamares expressivos, a exemplo da Doutora Raissa Soares (162.370 votos), da deputada Roberta Roma (156.108 votos) e do Capitão Alden (105.110 votos), garantindo ao partido uma representação histórica em Brasília.
- Cenário Majoritário: O senador Flávio Bolsonaro (PL) rompeu a barreira dos 1,97 milhão de votos nominais no estado, assegurando uma base sólida para a disputa de segundo turno.
Comunicação política e leitura da sociedade
Ao contextualizar a mecânica eleitoral da Região Metropolitana de Salvador e dos grandes centros urbanos, o secretário de Comunicação de Camaçari destacou que compreender a Espiral do Silêncio é pré-requisito indispensável para qualquer gestão pública democrática e para a formulação de campanhas modernas.
Para Honorato, o crescimento consolidado dessas forças demonstra que a sociedade baiana possui clivagens de valores, anseios de segurança pública e expectativas econômicas que não podem ser subestimadas pelas forças progressistas. A eficácia da comunicação de governo, conclui o estrategista, depende da capacidade de dialogar de forma pragmática com esse contingente de cidadãos que, embora silente no cotidiano, manifesta sua presença e força política por meio do sufrágio universal.