O mercado financeiro brasileiro registrou forte volatilidade nesta segunda-feira (26), após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para um quarto mandato, em meio às incertezas sobre os rumos da economia. Segundo o economista Vinicius Assis, especialista em macroeconomia e CEO da Onix Capital, a reação dos investidores reflete principalmente a divergência entre as expectativas eleitorais e o resultado das urnas. O especialista compara o movimento aos episódios de maior queda da Bolsa desde 1990, incluindo o recuo de 20,95% durante o Plano Collor e a baixa de 14,78% em março de 2020, no início da pandemia de Covid-19.
“Quando há incertezas, os investidores tiram o dinheiro do Brasil. Como consequência, o dólar sobe de imediato para um patamar que a gente imaginava que só seria alcançado no final do ano que vem, e a Bolsa desaba 16,70%, uma queda muito forte, a níveis de pandemia”, analisa o economista.
De acordo com Assis, o cenário de incerteza contribui para a saída de recursos do mercado brasileiro, pressionando o dólar e os preços dos ativos. Na análise do especialista, os contratos futuros da Bolsa chegaram a registrar queda de 16,70%, enquanto o dólar futuro apresentou alta próxima de 10%.
Para o economista, a falta de clareza sobre os rumos do governo aumenta a cautela dos investidores e dificulta a precificação dos ativos.
Entre os principais pontos de atenção está a política fiscal. Assis destaca as dúvidas sobre como o governo pretende financiar as medidas anunciadas durante o processo eleitoral, estimadas por ele em quase R$ 400 bilhões, e quais serão as diretrizes da equipe responsável pela condução da economia.
“Se o mercado não tiver clareza sobre o futuro, o Banco Central pode encontrar dificuldades para reduzir os juros. A possibilidade de manutenção ou até de elevação da Selic em um cenário adverso seria muito ruim para a economia”, avalia.
Relação com o Congresso será decisiva
Outro desafio apontado pelo CEO da Onix Capital é a relação do governo com o Congresso Nacional. Na avaliação do economista, a próxima legislatura poderá apresentar maior resistência à agenda do Executivo, especialmente diante das dificuldades fiscais e da necessidade de negociar medidas de ajuste das contas públicas.
“Esse cenário não significa necessariamente a paralisação das pautas governistas, mas pode tornar as negociações mais complexas. A capacidade de articulação política será um dos fatores relevantes para a implementação de medidas fiscais e para a redução das incertezas que afetam as decisões de investimento”, pontua Assis.
O economista também chama a atenção para as limitações do orçamento público. Segundo ele, a maior parte dos recursos disponíveis já está comprometida, o que reforça a necessidade de medidas de ajuste fiscal. Na análise apresentada, a cada R$ 100 disponíveis para gastos, R$ 90 já estariam comprometidos.
“É preciso aguardar e entender o que vai acontecer. À medida que as definições saírem e o cenário ficar mais claro, o mercado pode se acalmar. Mas isso não significa que teremos quatro anos economicamente tranquilos”, conclui.