Encontro realizado nesta sexta-feira (28) reuniu especialistas para discutir dados sobre violência de gênero, formas de identificação, acolhimento, prevenção e acesso à rede de proteção.
Informação, acolhimento e reconhecimento dos sinais de violência estiveram no centro da roda de conversa “Cuidar também é proteger – saúde e enfrentamento à violência contra a mulher”, realizada pelo Planserv – Assistência à Saúde do Servidor Público do Estado da Bahia, na tarde desta sexta-feira (28), no Hospital Casa de Retiro São Francisco, em Brotas, Salvador.
A atividade integrou as ações relacionadas ao Agosto Lilás e reuniu profissionais e convidados para discutir as diferentes formas de violência contra a mulher, seus impactos, os mecanismos de proteção disponíveis e a importância da escuta e do acolhimento às vítimas.
O encontro foi aberto pelo coordenador-geral do Planserv, Luiz Eduardo Perez, e teve como mediadora a coordenadora-executiva da instituição, Larissa Guerra. Participaram da roda de conversa a delegada da Polícia Civil Simone Maria Figueiredo Moutinho Borges, diretora de Valorização Profissional da Superintendência de Prevenção à Violência (Sprev/SSP-BA), e a procuradora do Estado Ivana Barreto Pirajá, procuradora-chefe do Centro de Estudos e Aperfeiçoamento da Procuradoria Geral do Estado da Bahia (PGE/BA).
Durante a mediação, Larissa Guerra relacionou o debate à atuação das instituições públicas diante de situações que afetam a saúde, a integridade e a segurança das mulheres. A coordenadora destacou a responsabilidade social dos órgãos públicos e a importância de instituições que atuam diretamente com saúde contribuírem para ampliar o acesso à informação, favorecer a identificação de situações de violência e orientar sobre os caminhos de proteção.
Dados ajudam a dimensionar a violência
Em sua apresentação, Simone Moutinho abordou a violência contra a mulher como uma questão que ultrapassa a esfera da segurança pública, envolvendo também violação de direitos humanos, saúde pública e aspectos sociais.
Os números apresentados dimensionaram a gravidade do problema. No Brasil, foram registrados 1.571 feminicídios, além de 788.531 ameaças, 123.871 casos de stalking e 60.830 registros de violência psicológica. O número de feminicídios representa o maior da série histórica, com cerca de quatro mulheres assassinadas por dia.
Na Bahia, os dados apresentados apontam que 25% das mulheres já sofreram algum tipo de violência, 20% relataram ocorrência nos últimos 12 meses e 69% disseram conhecer alguma vítima. Apesar desse cenário, apenas 14% denunciaram. Em 71% dos casos considerados, o agressor era marido ou companheiro, indicando a predominância das relações afetivas entre as situações de violência.
A apresentação mostrou ainda que a violência psicológica aparece entre as formas mais frequentes na Bahia, alcançando 86% dos casos considerados, seguida pelas violências moral (78%), física (75%), patrimonial (46%) e sexual (32%).
Simone também tratou de fatores que dificultam o rompimento do ciclo de violência, entre eles medo, dependência financeira, vergonha e subnotificação, e reforçou a importância do acolhimento baseado na escuta, no respeito, na orientação e no cuidado com a vítima.
Violência nem sempre deixa marcas visíveis
A procuradora Ivana Barreto Pirajá aprofundou a discussão sobre as diferentes formas pelas quais a violência pode se manifestar e chamou atenção para comportamentos que podem ser naturalizados ou não reconhecidos imediatamente como agressão.
A apresentação abordou as violências física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. Entre os exemplos apresentados estão agressões físicas; controle de roupas e redes sociais; isolamento de amigos e familiares; humilhações e ameaças; imposição de relações sexuais sem consentimento; controle do dinheiro; retenção de salário ou documentos; e outras condutas que atingem a integridade e a autonomia da mulher.
Ivana também explicou o ciclo da violência, que pode envolver períodos de tensão, episódios de agressão e uma fase posterior de arrependimento, promessas de mudança e reconciliação, dinâmica que ajuda a compreender a complexidade envolvida no rompimento de uma relação violenta.
Acolher sem julgar
Um dos pontos de convergência entre as apresentações foi a necessidade de saber como agir quando uma mulher revela estar vivendo uma situação de violência. A orientação é ouvir sem julgar, evitando questionamentos que possam responsabilizar a vítima, como perguntar por que ela não deixou a relação anteriormente.
Também foi ressaltado que a denúncia não deve ser imposta. O papel de quem recebe o relato é acolher, oferecer apoio e ajudar a mulher a conhecer e acessar, quando necessário, os serviços que integram a rede de proteção.
Durante a conversa, foram apresentados ainda mecanismos que permitem a uma mulher sinalizar silenciosamente que precisa de ajuda. Entre eles estão o Sinal Vermelho, feito com um “X” desenhado na palma da mão, e o Sinal por Ajuda, no qual o polegar é dobrado sobre a palma e coberto pelos demais dedos.
Proteção também passa pela prevenção
O debate avançou para as formas de prevenção da violência. Entre as medidas discutidas estão falar sobre respeito e consentimento desde a infância, não naturalizar comentários ou comportamentos misóginos no ambiente de trabalho, observar e dialogar sobre os conteúdos consumidos por crianças e adolescentes e fortalecer redes de apoio e reflexão.
Ivana apresentou também iniciativas desenvolvidas pelo PGE Por Elas, projeto voltado ao acolhimento, à conscientização e oi ao fortalecimento de uma cultura de respeito, igualdade e enfrentamento à violência de gênero. As ações incluem iniciativas de sensibilização, pesquisa sobre os impactos das violências e desigualdades de gênero entre servidoras, formação e discussões sobre mecanismos de proteção.
A discussão reforçou que o enfrentamento à violência não se restringe ao momento da denúncia. Envolve prevenção, educação, identificação dos sinais, acolhimento e atuação articulada de diferentes áreas. A rede de proteção apresentada durante o encontro inclui serviços de saúde, Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs), Ministério Público, Defensoria, Judiciário, CRAS e CREAS.
Canais de ajuda e denúncia
As participantes reforçaram ainda a importância de conhecer os canais disponíveis. O Ligue 180 funciona como Central de Atendimento à Mulher, em âmbito nacional, gratuitamente e 24 horas por dia. Em situações de emergência imediata, o acionamento deve ser feito pelo 190. A apresentação da Sprev/SSP-BA também indicou o 181 entre os canais de denúncia.
Ao final da atividade, as convidadas receberam uma homenagem pela participação na roda de conversa. O Planserv também registrou agradecimento ao Hospital Casa de Retiro São Francisco, que cedeu o espaço para a realização do encontro.
A roda de conversa integrou as atividades do Planserv relacionadas ao Agosto Lilás, com foco na disseminação de informações que contribuam para o reconhecimento das diferentes formas de violência, o acolhimento adequado e o acesso aos serviços e mecanismos de proteção disponíveis.