Secretário de Mobilidade de Salvador afirma que a mesma frota operou nos dois turnos e atribui a polêmica à polarização eleitoral e aos adesivaços nos coletivos
O secretário municipal de Mobilidade Urbana de Salvador, Pablo Souza, negou que a operação de transporte público durante o segundo turno das eleições tenha sido motivada por interesses políticos. Em entrevista nesta quinta-feira (29) ao BNews, no programa Giro Baiano, o titular da Semob afirmou que não tem filiação partidária e classificou sua trajetória na administração pública como técnica.
A declaração ocorre em meio à polêmica sobre a quantidade de ônibus em circulação no domingo de votação e às acusações de que a oferta do serviço teria sido prejudicada por razões políticas.
“Eu não sou político, eu não sou filiado a nenhum partido político, sou técnico”, afirmou Pablo, ao destacar que iniciou a carreira na Prefeitura de Salvador em 2008, como estagiário, após retornar de um intercâmbio na França. Formado pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), ele disse ter construído uma trajetória profissional de quase duas décadas no serviço público.
Ao justificar a programação adotada no segundo turno, o secretário argumentou que o domingo de eleição costuma registrar a menor movimentação anual de passageiros no transporte público da capital baiana. Segundo ele, o comportamento dos eleitores é diferente daquele observado em dias úteis, quando há deslocamentos para o trabalho, escolas, centros comerciais e escritórios.
De acordo com Pablo, existem três perfis principais de deslocamento eleitoral: pessoas que votam perto de casa, eleitores que mantêm o título em um endereço antigo e aqueles que precisam se deslocar até grandes colégios eleitorais ou corredores de transporte.
“O que a gente tem na realidade do dia de eleição é o dia de menor movimentação no transporte público da cidade no ano, é o dia que menos movimentamos pessoas”, declarou.
Questionado se essa característica também se mantém quando o transporte público é gratuito, o secretário respondeu que sim. Ele argumentou que, mesmo sem cobrança de tarifa, a atividade comercial e o funcionamento de grandes polos geradores de viagens não ocorrem em sua plenitude aos domingos de eleição.
“Mesmo com o transporte sendo gratuito, a gente não tem um comércio pleno, a gente não tem os shoppings que são grandes polos geradores de viagem plenos, a gente não tem uma operação de escritórios”, afirmou.
Pablo acrescentou que muitos eleitores votam perto de casa e retornam às residências para acompanhar a apuração, enquanto outros permanecem nos bairros onde cresceram, aproveitando a ocasião para reencontrar amigos e familiares.
Secretário compara frota dos dois turnos
Um dos principais argumentos apresentados por Pablo Souza para afastar a hipótese de motivação política foi a manutenção da mesma programação de frota nos dois turnos eleitorais. Segundo ele, a quantidade de ônibus utilizada no segundo turno foi a mesma do primeiro, quando a disputa pelo governo da Bahia tinha ACM Neto (União Brasil) como candidato.
O secretário destacou que ACM Neto é uma das principais lideranças políticas do grupo que administra Salvador, ao lado do prefeito Bruno Reis (União Brasil). Para Pablo, essa circunstância enfraquece a interpretação de que a programação do transporte teria sido planejada para prejudicar candidatos específicos.
“A mesma frota que rodou em Salvador no primeiro turno, e as pessoas estão tentando atribuir isso à política, onde ACM Neto foi candidato a governador, ACM Neto é o líder político da Prefeitura de Salvador e do grupo da Prefeitura junto com o prefeito Bruno Reis, foi exatamente a frota que rodou no segundo turno”, declarou.
Em seguida, questionou a lógica da acusação de interferência política na operação.
“Então por que que a gente faria a mesma frota para, em tese, seguindo essa teoria, prejudicar ACM Neto, que foi candidato a governador, e adotaria a mesma frota no segundo turno, a gente só tem um voto que é o voto de presidente, para poder prejudicar Lula e Flávio Bolsonaro?”, questionou.
A fala faz referência à repercussão sobre a oferta de ônibus no segundo turno da eleição presidencial, disputado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). A polêmica ganhou força após imagens de coletivos estacionados em garagens levantarem questionamentos sobre a disponibilidade do serviço para os eleitores.
Pablo diz que não participou de atos políticos
O secretário também negou ter participado de manifestações ou atos de campanha relacionados à disputa presidencial no segundo turno. Ele afirmou que, enquanto integrantes da Prefeitura participavam de uma mobilização de apoio a Flávio Bolsonaro na Barra, estava em compromissos administrativos no Subúrbio Ferroviário de Salvador.
“Eu estava no Alto do Cabrito com a vereadora Isabela Souza fazendo a entrega da linha nova, da retomada da linha Alto do Cabrito nos finais de semana”, relatou.
Segundo Pablo, após a agenda no Alto do Cabrito, ele seguiu para Colinas de Periperi, onde participou de uma celebração do Dia das Crianças com lideranças comunitárias.
“Não participei em momento algum de nenhum ato político desse segundo turno. Você não tem nenhuma imagem minha em nenhum local com nenhum adesivo, com nenhum candidato, nenhuma manifestação sobre esse tema”, afirmou.
O secretário voltou a sustentar que a polarização política contaminou o debate sobre o transporte público e disse que a discussão foi influenciada tanto pelos adesivaços nos ônibus quanto pelas tentativas de atribuir motivação eleitoral à programação da frota.
“A eleição de domingo foi uma eleição muito caracterizada por essa polarização política, por um acirramento político que contaminou a agenda do transporte público. Contaminou não só pela ação sistemática do adesivaço, que é um crime eleitoral, inclusive determinado pelo TSE, mas também contaminou do ponto de vista da politização da agenda”, declarou.
Em entrevista anterior, Pablo havia acusado apoiadores de Lula, alguns deles ligados ao Sindicato dos Rodoviários, de promoverem adesivaços coordenados nas garagens de Salvador, com interrupções na saída dos coletivos. Segundo ele, os episódios provocaram impactos operacionais, especialmente a partir das 9h.
Secretário cita reconhecimento nacional
Ao reforçar sua defesa, Pablo Souza mencionou uma indicação recebida de colegas de outras cidades. Segundo ele, secretários de mobilidade urbana de diferentes regiões do país o apontaram como um dos três nomes de destaque do ano em uma premiação nacional do setor.
“Essa é a minha conduta, essa é a minha postura, volto a dizer, não sou filiado a partido, sou um quadro técnico, tenho quase vinte anos de construção de uma carreira, de uma trajetória pública”, afirmou.
“Diante dessa grande polêmica, tive a honra, Mateus, de ter sido indicado pelos meus pares, colegas secretários de mobilidade do país, como um dos três nomes destaque do ano na maior premiação do país, o que muito me honrou”, completou.