Por Yuri Almeida
A recente divulgação da pesquisa Genial/Quaest, realizada em abril de 2026 com eleitores baianos, gerou uma onda de análises apressadas e posicionamentos, no mínimo, equivocados por parte de alguns setores da oposição. Apegando-se a uma leitura superficial dos dados, criou-se a narrativa de que existiria um sentimento radical e majoritário de ruptura no estado, cravando que “74% dos baianos querem mudança”.
No entanto, quando dissecamos os números e fazemos os cruzamentos corretos que uma pesquisa densa como essa exige, o cenário que se desenha não é o de uma guinada oposicionista, mas sim de uma sólida continuidade. O dado dos “74%” é, na verdade, fruto de um erro metodológico grosseiro e de uma forçação de barra ideológica.
O equívoco central da oposição está na forma como interpretam a pergunta sobre o que o próximo governador deve fazer. A pesquisa aponta que 34% dos eleitores desejam que o próximo gestor decida “Mudar totalmente”. A esse número, estrategistas da oposição somaram os 40% que defendem “Mudar apenas o que não está bom”, criando o falso bloco dos 74%. (Outros 22% defendem “Continuar o trabalho que vem sendo feito” ).
Somar quem quer uma ruptura total com quem reconhece os méritos da gestão, mas pede ajustes, é um erro primário de leitura de comportamento do eleitor. Aqueles 34% que exigem mudança total representam, de forma muito clara, a média histórica da votação do carlismo (antigo PFL e atual União Brasil) nos últimos 20 anos. Ou seja, quem deseja a mudança radical são, majoritariamente, os eleitores que historicamente já votam contra o PT na Bahia. Trata-se do teto da oposição, não de uma nova onda.
Cenário de reeleição
Para entender a real intenção do eleitor baiano, é preciso olhar para os indicadores de avaliação e projeção futura, que apontam para a estabilidade do atual projeto político:
Aprovação consolidada: O governo de Jerônimo Rodrigues mantém a aprovação da maioria do eleitorado, registrando 56% de aprovação contra 33% de desaprovação. Em termos de avaliação, 37% consideram a gestão positiva (ótimo/bom) e 33% a avaliam como regular.
Potencial de reeleição: Quando a pesquisa pergunta de forma direta se Jerônimo Rodrigues merece ser reeleito, a maioria é clara: 51% dizem que sim, ele merece , contra 42% que dizem que não. Analisando as séries históricas do Brasil, gestores que disputam a reeleição com aprovação e desejo de permanência acima da margem dos 50% têm uma altíssima probabilidade de vitória.
O fator Lula: O alinhamento nacional continua sendo um motor decisivo na Bahia. A pesquisa mostra que 47% do eleitorado gostaria que o próximo governador fosse um aliado do presidente Lula , número quase três vezes maior do que os 16% que preferem um aliado de Bolsonaro.
A hegemonia no Senado
Se o cenário para o governo do estado indica continuidade, a disputa para o Senado reforça essa tese de forma ainda mais contundente. Nas eleições onde os baianos elegerão dois senadores, os candidatos do grupo governista demonstram uma força hegemônica.
Na simulação de combinação de votos totais para as duas vagas, Rui Costa (PT) lidera com 24% das intenções , seguido de perto por Jaques Wagner (PT), com 22%. Quando somamos o capital político de ambos, o resultado é mais que o dobro das intenções de voto dos principais nomes da oposição testados, como João Roma (PL), que aparece com 9% , e Angelo Coronel (Republicanos), com 6%.
Uma estratégia de marketing político baseada em uma premissa falsa caminha a passos largos para a derrota. Ao cruzar todas essas variáveis — a aprovação positiva do governador, o forte desejo de reeleição, o peso decisivo do alinhamento com Lula e o favoritismo acachapante para o Senado —, a realidade se impõe.
A matemática da pesquisa Quaest na Bahia não mente: o estado não respira ares de ruptura. O cenário projetado para as eleições de 2026 é, inegavelmente, um cenário de continuidade. Quem ignorar os dados e preferir a ilusão dos números somados artificialmente, provavelmente terá que lidar com o amargor das urnas.
Yuri Almeida é professor, estrategista político e especialista em campanhas eleitorais
