Candidata do PSOL ao Senado também criticou o punitivismo isolado e se solidarizou com Marina Silva após tentativa de agressão em São Paulo
“Não importa, a senhora vai me reprovar, mas o meu governador vai me passar.” A frase, ouvida por Delliana Ricelli de um aluno em sala de aula, resume o diagnóstico que a professora e candidata ao Senado pelo PSOL apresentou ao abrir sua fala sobre educação durante sabatina promovida pela TV Aratu nesta terça-feira (18).
Para ela, o relato expõe o esvaziamento do sentido da escola provocado pela política de aprovação automática.
Entrevistada pelos jornalistas Pablo Reis, apresentador do programa, Rebeca Menezes e João Tramm, Delliana recorreu à própria trajetória para sustentar o argumento: filha de uma técnica de enfermagem que criou quatro filhos sozinha, chegou à universidade pública, concluiu o mestrado e ingressou por concurso na rede estadual de ensino. “Foi a educação que me fez entrar numa universidade pública, foi através da educação que eu consegui fazer um mestrado e passar no concurso do Estado”, resumiu.
A candidata cobrou reconhecimento salarial para os professores da rede estadual. Segundo ela, o reajuste de 5,3% concedido recentemente foi neutralizado por aumentos de até 130% em outras despesas, o que na prática reduziu o poder de compra da categoria. Delliana também citou um déficit de educadores na rede baiana e criticou a limitação da licença-pecúnia a apenas mil professores, número que considera insuficiente diante do tamanho do quadro docente.
A crítica recaiu ainda sobre a gestão escolar.
Delliana apontou o fim da eleição direta para diretores de unidades de ensino, hoje nomeados pelo governo, o que, segundo ela, compromete a fiscalização de problemas como atraso de verbas, já que gestores nomeados evitam expor publicamente falhas da própria gestão.
Citou também a ausência de um protocolo único nas escolas baianas para casos de bullying e misoginia, o que faz com que cada unidade resolva essas situações de forma isolada. Para a candidata, esse conjunto de fragilidades ajuda a explicar por que a Bahia continua atrás de outros estados no que se refere ao desempenho escolar.
A entrevista seguiu para o debate sobre segurança pública, tema que a candidata conectou à mesma lógica: para ela, a ausência de investimento social explica boa parte dos problemas que hoje se tenta resolver pela via penal. Cobrada sobre uma eventual postura contrária ao punitivismo, rejeitou o rótulo e fez uma distinção que considera central.
“Existe uma diferença entre ser contra o punitivismo único e exclusivo e defender que, paralelamente, outras medidas precisam acontecer”, afirmou, reconhecendo que quem comete crime precisa ser responsabilizado, mas defendendo que a assistência integral deve vir antes da resposta penal.
Sobre o tipo de atuação que pretende ter no Senado, caso eleita, defendeu equilíbrio entre diálogo e enfrentamento, sem abrir mão de pautas que considera inegociáveis, citando o fim da escala 6×1 como exemplo. “O diálogo é necessário, mas o enfrentamento, muitas vezes, é eficaz”, completou.
Na saúde, a professora criticou o modelo do governo estadual de construir hospitais e, em seguida, repassar a gestão a operadoras privadas.
“Não adianta o governo dizer que vai construir hospitais e entregar esse hospital na mão da iniciativa privada. A gente precisa de concurso para a saúde”, declarou, citando ainda os salários atrasados de servidores e a superlotação das unidades como efeitos diretos dessa política.
Questionada sobre violência contra a mulher, Delliana definiu o problema como uma “epidemia” e defendeu o fortalecimento da Lei Maria da Penha, que classificou como uma legislação de caráter pedagógico, voltada também à ressocialização de quem agride.
A resposta ganhou contexto adicional pelo momento em que foi dada: a sabatina ocorreu um dia depois de a ex-ministra do Meio Ambiente e candidata ao Senado por São Paulo, Marina Silva, ser alvo de uma tentativa de agressão durante caminhada de campanha no centro da capital paulista, na segunda-feira (17).
Ao comentar o caso, Delliana manifestou solidariedade à Marina Silva, reforçando que casos como esse expõem a urgência de tratar a violência contra a mulher como prioridade de Estado, e não como fato isolado.
Nas considerações finais, Delliana afirmou que ela e o também candidato ao Senado pela federação PSOL-Rede, Marcelo Carvalho, são os únicos concorrentes ao cargo sem qualquer relação com o Banco Master. Defendeu a renovação da política baiana, com mais mulheres, pessoas negras e representantes da comunidade LGBTQIA+ ocupando espaços hoje concentrados, segundo ela, em “homens ricos de cabelos já brancos”.
Fotos: Tamires Souza e Sophia Garcia