Titular da USP defende o fortalecimento do regime de colaboração entre Estado, municípios e federação para impulsionar a aprendizagem na Bahia.
Garantir a alfabetização plena de todas as crianças até os 7 anos de idade é o principal desafio pedagógico e estrutural da educação contemporânea no Brasil, sob o risco de perdas severas no rendimento dos estudantes. O alerta foi emitido nesta terça-feira (9), em Salvador, pelo professor Mozart Ramos, titular da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto. Em entrevista ao Classe Política durante o Encontro Territorial do Movimento Bahia pela Educação, o especialista convocou uma aliança estratégica institucional para elevar os patamares educacionais baianos.
“Se não alfabetizarmos nossas crianças até os 7 anos, as chances de sucesso escolar caem assustadoramente ao longo do processo, ampliando muito a evasão escolar”, declarou.
Para Ramos, o domínio pleno da leitura e da escrita na idade correta estabelece as bases de sustentação para toda a vida acadêmica. Ele argumentou que a superação das desigualdades educacionais entre os municípios exige um pacto federativo robusto, pautado pela cooperação mútua.
“A educação não se faz isoladamente. Município, Estado e União precisam atuar de forma colaborativa. Um movimento como esse fortalece o regime de colaboração e aumenta as chances de sucesso, principalmente quando há também a participação da sociedade”, afirmou.
O educador ressaltou que a mobilização em solo baiano cumpre com precisão as diretrizes legais do país ao integrar diferentes atores sociais em uma meta coletiva. A iniciativa, segundo ele, dá vida prática aos princípios estabelecidos no artigo 205 da Constituição Federal, dividindo as responsabilidades de forma democrática.
“O que aconteceu ao longo desses últimos meses em toda a Bahia foi exatamente isso: mobilizar pessoas e instituições em torno da causa da educação. O movimento não pertence a um único ator, mas a todos que compartilham a responsabilidade de melhorar a aprendizagem das crianças”, disse.
A expressiva adesão de docentes e equipes diretivas nos fóruns regionais promovidos em toda a Bahia foi celebrada pelo palestrante. Ramos observou que o engajamento massivo evidenciou o desejo da categoria por espaços institucionais voltados ao debate técnico e ao compartilhamento de estratégias bem-sucedidas.
“Uma coisa que me impressionou foi o grau de participação dos professores e diretores. Isso demonstra que eles tinham enorme vontade de ter um espaço como esse para discutir soluções e compartilhar experiências”, ressaltou.
Ao projetar o cronograma de ações para o segundo semestre, o professor anunciou que as atividades serão concentradas na capacitação contínua de professores alfabetizadores e líderes escolares, além da validação pública dos municípios que alcançarem os melhores desempenhos.
“A Bahia foi o estado que mais avançou no Brasil nos indicadores mais recentes. Agora precisamos reconhecer quem está fazendo um bom trabalho e, ao mesmo tempo, ajudar os municípios que ainda enfrentam maiores dificuldades”, afirmou.
A estratégia de mentoria e intercâmbio técnico entre localidades vizinhas que compartilham perfis econômicos similares, mas que registram resultados distintos nas avaliações, será um dos eixos centrais da nova etapa do projeto.
“Às vezes encontramos municípios vizinhos, com realidades econômicas parecidas, mas resultados muito diferentes. Por isso, um dos slogans do movimento é que a Bahia pode aprender com a Bahia. Quem está conseguindo bons resultados pode servir de inspiração para quem ainda busca melhorar seus indicadores”, explicou.
Ramos encerrou reforçando que a consolidação dessa grande rede de apoio recíproco é a alternativa mais eficiente para universalizar o ensino de qualidade e assegurar direitos básicos na infância.
“Quem ganha com isso é a criança baiana. O nosso objetivo é fazer com que nenhum município fique para trás e que todas as crianças tenham as mesmas oportunidades de aprendizagem”, concluiu.