Salvador, 20/02/2026 13:08

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Trio Wagner, Rui e Jerônimo vence trio de ACM Neto nas redes sociais durante o Carnaval

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Por Yuri Almeida

O Carnaval brasileiro, como nos lembra Roberto DaMatta, não é apenas festa: é um ritual de inversão que expõe o “fundo da sociedade”, vira a roupa social do avesso e dramatiza, em poucos dias, hierarquias, conflitos e sonhos de igualdade que marcam o Brasil ao longo do ano. À luz dessa chave antropológica, os dados do estudo do LabCaos sobre o desempenho do Trio Puro G (Wagner, Rui e Jerônimo), do trio de ACM Neto (Neto, Roma e Coronel) e do engajamento do presidente Lula, no Instagram, durante o Carnaval de 2026 deixam de ser mera estatística de campanha e se tornam um capítulo a mais da disputa por sentidos e pertencimentos na democracia brasileira.​

DaMatta descreve o Carnaval como um “ritual de inversão”: em uma sociedade hierárquica, autoritária e patronal, por alguns dias “se pode fazer tudo”, como se a ordem fosse virada “de cabeça para baixo” e o “fundo do poço viesse para cima”. Esse movimento não é puro descontrole, mas um drama social estruturado em que a rua deixa de ser apenas espaço de estranhos e se torna uma espécie de casa ampliada, onde desconhecidos se tratam com intimidade e as distâncias de classe, raça e poder são momentaneamente relativizadas. É nesse cenário que trios elétricos, camarotes e blocos se transformam em palcos privilegiados de visibilidade política.
Hoje, porém, uma parte essencial desse drama é encenada em outro espaço simbólico: as redes sociais, em que o Carnaval se prolonga em vídeos, selfies, postagens e métricas de engajamento.​

O estudo realizado durante o período de 12 a 18 de fevereiro de 2026 analisa o desempenho, no Instagram, de dois conjuntos de atores centrais da política baiana: de um lado, o Trio Puro G (Jaques Wagner, Rui Costa e Jerônimo Rodrigues), de outro, o trio de ACM Neto (Neto, João Roma e Angelo Coronel), além da participação do presidente Lula na folia em Salvador. Em termos quantitativos, o Trio Puro G conquistou mais de 7,3 mil novos seguidores, frente a 5,4 mil do trio adversário; alcançou taxa de engajamento de 7,81%, mais de três vezes superior aos 2,18% da chapa carlista; e somou cerca de 330 mil interações (curtidas + comentários), contra 153 mil do grupo de Neto, Roma e Coronel. Entre os 10 melhores conteúdos de Lula no período carnavalesco, dois dizem respeito diretamente à sua participação no Carnaval de Salvador, incluindo o segundo melhor desempenho do conjunto, e é justamente na Bahia que o presidente atinge seu maior pico de engajamento, no dia 14 de fevereiro.​

Lidos à luz de DaMatta, esses números sugerem que estamos diante de uma dupla “carnavalização”: da política pelo Carnaval e do Carnaval pela política. Quando Lula dança no Campo Grande, ao lado de Jerônimo, sob o som de BaianaSystem, e esse gesto é retransmitido em massa pelas redes, não se trata apenas de agenda institucional; é a própria figura presidencial sendo reelaborada no registro da festa, como corpo que pula, “sai do chão” e se deixa afetar pela energia popular. A alta performance de suas postagens associadas à Bahia indica que o Carnaval funciona como um acelerador de narrativas de vitalidade, proximidade e pertencimento, especialmente para um presidente octogenário que precisa demonstrar vigor físico e simbólico em ano de articulações para a reeleição. Ao mesmo tempo, a vantagem expressiva do Trio Puro G sobre o trio carlista em seguidores, engajamento e interações sugere que o campo governista baiano conseguiu traduzir de forma mais eficaz a gramática da festa para a linguagem das redes.​

DaMatta insiste que compreender o Carnaval é compreender o Brasil porque a festa atua como ponte entre casa e rua, entre o mundo dos “nossos” e o universo dos “outros”, entre a intimidade dos vínculos pessoais e a impessoalidade das leis. Em “A casa e a rua”, ele mostra que esses não são apenas espaços físicos, mas “entidades morais”, domínios de ação social que despertam emoções, rituais e linguagens específicas. O Carnaval tensiona essa fronteira: a rua vira casa, o camarote tenta domesticar a multidão, a fantasia cria zonas de anonimato e liberdade. No ambiente digital, essa tensão se reconfigura: o feed organiza, num mesmo fluxo, fotos de família, anúncios, influenciadores, blocos e líderes políticos. Quando o estudo mostra que o Trio Puro G engaja mais, podemos ler esse dado como sinal de que esses atores conseguiram habitar o feed de forma mais “doméstica” – isto é, mais próxima da intimidade simbólica do eleitor – do que o trio adversário.​​

Os aprendizados do estudo reforçam essa interpretação. Em primeiro lugar, o Carnaval funciona como grande palco de teste de força simbólica e narrativa, com impacto direto nas redes. Medir o engajamento nesse período ajuda a antecipar o humor do eleitor, a capacidade de mobilização e o grau de aderência entre imagem do político e espírito da festa. Em segundo lugar, o fato de o Trio Puro G ganhar mais seguidores durante a folia indica maior capacidade de conversão da visibilidade em base nova, algo central para campanhas que dependem de ampliar seu alcance para além das bolhas já convencidas. Em terceiro lugar, a taxa de engajamento muito superior e o dobro de interações sugerem que não se trata apenas de audiência numérica, mas de uma comunidade mais mobilizada, na qual conteúdo e linguagem acionam afetos como alegria, identificação e torcida, elementos que DaMatta reconhece como centrais na experiência carnavalesca.​​​

Ao introduzir Lula na análise, emerge outro nível de leitura: o da articulação entre liderança nacional e regionais no espaço simbólico do Carnaval. O roteiro do presidente, que passa por Recife, Salvador e outras capitais, é parte explícita de uma estratégia de costura de palanques estaduais, mas também de uma tentativa de “nacionalizar” emoções locais, transformando o axé baiano e o frevo pernambucano em capital político de alcance nacional. O pico de engajamento em sua passagem pela Bahia, somado ao fato de que dois de seus melhores conteúdos no período remetem diretamente ao Carnaval de Salvador, mostra como a associação entre Lula e o “molho” do povo baiano potencializa sua imagem de presidente próximo, popular e alegre. Se o Carnaval, para DaMatta, é momento em que “os invisíveis ganham voz e visibilidade”, também é ocasião em que figuras já visíveis podem renovar ou disputar o sentido de sua própria visibilidade.​

Nada disso é isento de ambivalência. DaMatta lembra que o Carnaval possui um “papel dúplice”: reproduz ideologias e valores dominantes, mas também abre brechas de contestação, subversão e crítica social. A mesma festa que se elitiza em camarotes luxuosos permanece, nas ruas, como bastião da cultura popular e espaço de resistência. Nas redes, essa duplicidade se traduz em outro paradoxo: as plataformas ampliam vozes e produzem aparência de horizontalidade, mas são atravessadas por algoritmos, patrocínios, assimetrias de acesso e sofisticadas estratégias de marketing político. O fato de o governo baiano e seus aliados – incluindo o Trio Puro G e Lula – terem apresentado desempenho superior nesse ecossistema durante o Carnaval de 2026 revela competência em ocupar esse espaço híbrido.

Do ponto de vista analítico, alguns desdobramentos se impõem. Primeiro, o Carnaval confirma sua centralidade como observatório privilegiado da relação entre festa, política e tecnologia: quem ignora as métricas desse período perde um termômetro sensível do humor social e das estratégias de construção de imagem em curso. Segundo, os dados sugerem que, numa democracia midiatizada, a disputa eleitoral passa, cada vez mais, por saber traduzir rituais populares em narrativas digitais capazes de produzir identificação e engajamento. Terceiro, a performance de Lula e do campo governista baiano nas redes carnavalescas mostra que a esquerda no poder conseguiu, ao menos nesse recorte, ocupar o lugar de protagonista da festa – algo que no passado nem sempre foi pacífico, sobretudo em momentos de forte moralização do debate público.​

Se, como afirma DaMatta, “compreender o Carnaval é compreender o Brasil”, acompanhar quem ganha seguidores, interações e picos de engajamento durante a folia é também acompanhar como diferentes projetos de Bahia e Brasil tentam se inscrever na sensibilidade popular. Os gráficos de engajamento, nesse sentido, não são apenas indicadores de eficiência comunicacional, mas fragmentos de um drama social mais amplo, no qual se renegociam continuamente hierarquias, afetos e pertencimentos. Em 2026, o enredo que se desenha nas ruas de Salvador, nos trios elétricos nos circuitos da folia e nos feeds de milhões de baianos e brasileiros indica que, por enquanto, o bloco que reúne Lula, e o trio Wagner, Rui e Jerônimo conseguiu superar o trio de ACM Neto.

Yuri Almeida é estrategista político, professor e especialista em campanhas eleitorais

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