João Roma não citou o nome de Flávio Bolsonaro nas suas primeiras peça de televisão, preferindo falar de Brasília, do Ministério da Cidadania, de ações sociais. O presidente estadual do PL abandonou o verde e amarelo e as imagens da cúpula do bolsonarismo nas redes sociais, e passou a usar o azul, cor da campanha de ACM Neto.
O contraste com a campanha de 2022 expõe a mudança de estratégia. Naquele ano, Roma disputou o governo da Bahia totalmente associado à imagem e ao palanque de Jair Bolsonaro. Perdeu. Agora, como candidato ao Senado na chapa de Neto, suaviza a defesa do bolsonarismo e se aproxima da linguagem do candidato ao governo.
A lógica eleitoral explica o movimento. Levantamentos recentes mostram Lula com 55% das intenções de voto para presidente na Bahia, contra 22% de Flávio Bolsonaro, número que se repete em pesquisas anteriores do Paraná Pesquisas, com 51,3% para Lula e 25,8% para Bolsonaro. A rejeição trabalha na mesma direção: Flávio tem 54% de rejeição no estado, o maior índice entre os presidenciáveis testados. Enquanto, ACM Neto mantém vantagem sobre Jerônimo Rodrigues na disputa pelo governo, 44% a 39%.
O fenômeno tem nome na imprensa nacional: o voto casado entre Lula e candidatos de oposição ao PT aparece no Ceará, Pernambuco, Bahia e São Paulo, desafiando a polarização nacional. Na Bahia, o eleitor pretende marcar Lula para presidente e Neto para governador na mesma cédula. Roma sabe que precisa destas mesmas pessoas nas urnas e o nome de Flávio Bolsonaro, com 54% de rejeição, funciona como repelente, não como imã.
A tensão interna do PL confirma o cálculo. Candidatos da legenda reclamam que a estrutura estadual do partido não distribui material suficiente de Flávio Bolsonaro, e passaram a bancar a impressão por conta própria. O deputado Giu Argôlo, candidato à Câmara, afirmou que aliados do bolsonarismo estão sendo boicotados na distribuição de verbas e que foi impedido de citar Bolsonaro em gravação para TV. Há temor, dentro da sigla, de que a moderação de imagem reduza a conquista de cadeiras legislativas no estado.
Candidatos do PL na Bahia bancam material de Flávio Bolsonaro por conta própria.
Ao integrar a chapa de Neto, Roma diz seguir a identidade visual do grupo, boa explicação técnica para uma decisão política. A avaliação é que Roma tentará tirar votos de ACM Neto o ligando a Lula, enquanto o PT tentará colar no ex-prefeito o rótulo de bolsonarista: o jogo de imagem corre nas duas direções da chapa, e Roma está no meio dele, precisando parecer de Neto sem deixar de ser do PL.
O resultado é um candidato que administra duas bases ao mesmo tempo: o eleitorado bolsonarista fiel, que exige lealdade a Flávio, e o eleitorado Lula-Neto, que despreza a aproximação. Esconder não é a palavra exata, talvez dosar caia melhor. Roma já resume a nova fase num slogan: “o senador de Neto”. Senador de Neto? Até pouco tempo, era o senador de Bolsonaro.