Com aumento dos veículos elétricos, condomínios precisam adaptar instalações, criar regras e evitar conflitos entre moradores.
O carro elétrico começa a mudar uma das áreas mais tradicionais dos condomínios: a garagem. Com a expansão da venda de veículos elétricos e híbridos plug-in, cresce também o número de moradores que querem instalar carregadores em suas vagas. O problema é que ter uma vaga privativa não significa ter liberdade para modificar a infraestrutura elétrica do prédio.
A questão já chegou aos tribunais. Uma decisão judicial em Goiânia manteve a proibição de uma moradora que pretendia instalar, por conta própria, uma estação de recarga em sua vaga. A decisão considerou que componentes como fiação, barramentos, transformadores e quadros de distribuição fazem parte da infraestrutura comum do condomínio e que alterações na rede precisam observar as regras coletivas.
Na Bahia, o assunto ganha ainda mais importância porque o Corpo de Bombeiros Militar da Bahia estabelece exigências específicas para sistemas de alimentação de veículos elétricos (SAVE). Entre as medidas estão dispositivos de desligamento de emergência, sinalização e atendimento a normas técnicas de instalações elétricas. Em determinadas edificações existentes, também estão previstas adequações relacionadas a sistemas de detecção e alarme de incêndio e sprinklers.
Outro ponto que pode surpreender os moradores é o impacto na própria rede elétrica do edifício. Um carregador pode exigir potência significativa, e a instalação de vários equipamentos sem planejamento pode provocar sobrecarga. Por isso, especialistas recomendam avaliação da capacidade do transformador, barramentos e demais componentes antes da autorização de novos pontos de recarga.
E quem paga a conta?
Esse é outro potencial conflito.
A instalação precisa considerar não apenas a segurança, mas também quem será responsável pelos custos da infraestrutura e pelo consumo de energia. O material recomenda a individualização da medição para evitar que a energia utilizada para carregar o veículo de um morador seja indevidamente rateada entre todos os condôminos.
Nos condomínios que adotam carregadores compartilhados, surgem ainda problemas de reserva de vagas, tempo de permanência e uso indevido. Entre as soluções apontadas estão agendamento por aplicativo, limite de tempo e regras específicas para utilização dos equipamentos.
Para José Ferreira, CEO da ACC Gestão, o avanço da eletromobilidade exige que os condomínios deixem de tratar a instalação de carregadores como uma decisão individual e passem a encará-la como uma questão de segurança, planejamento e gestão coletiva.
“O morador pode ter o direito de utilizar sua vaga, mas a infraestrutura elétrica é uma questão que envolve todo o condomínio. Antes de autorizar qualquer instalação, é preciso saber se a estrutura suporta a demanda, definir quem paga pela adequação e estabelecer regras claras para evitar riscos e conflitos.”
A orientação é que síndicos e conselhos realizem avaliação técnica da estrutura elétrica, verifiquem as exigências de segurança, regulamentem o uso dos carregadores na convenção ou no regimento interno e exijam responsabilidade técnica para intervenções na instalação.
A discussão não diz respeito apenas aos proprietários de veículos elétricos. Uma instalação inadequada pode envolver segurança, patrimônio e despesas de todo o condomínio.