O deputado federal reeleito Pastor Sargento Isidório (Avante-BA) fez um desabafo sobre o período em que foi preso e supostamente torturado durante a histórica greve da Polícia Militar da Bahia em 2001. O parlamentar, que obteve a maior votação do estado para a Câmara dos Deputados no último pleito, atribuiu os abusos sofridos à gestão governamental do grupo carlista da época e afirmou que as sequelas do episódio permanecem irreversíveis.
“A gente não pode se calar com tortura, porque tortura sequer prescreve. Existe torturas na vida da gente que a gente não esquece”, declarou Isidório em entrevista a rádio Sociedade nesta sexta-feira (16), visivelmente emocionado, ao recordar o impacto dos episódios sobre sua família e sobre a saúde da sua mãe, que sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) decorrente do estresse com o seu desaparecimento na ocasião.
A prisão de 2001 e o ápice do movimento grevista
A trajetória conturbada relembrada pelo deputado remonta a julho de 2001. Naquele período, sob o governo de César Borges (PFL) — alinhado ao grupo político liderado por Antônio Carlos Magalhães —, o então 1º sargento Isidório de Santana e o tenente Everton Uzeda surgiram como as principais lideranças dos policiais militares na busca por reajustes salariais e melhorias nas condições de trabalho da corporação.
O movimento resultou em uma paralisação de 13 dias que paralisou a capital baiana e gerou forte tensão política. Antes mesmo do deflagrar da greve, Isidório e Uzeda foram detidos por insubordinação e exonerados ao lado de dezenas de outros praças e oficiais. A reação das forças policiais foi imediata, ampliando a adesão aos batalhões em todo o estado.
O ápice do isolamento ocorreu quando Isidório viajou a Brasília para denunciar ao Ministério da Justiça a situação dos policiais baianos. Na volta, foi interceptado sem ordem judicial e mantido incomunicável por cerca de dez dias, período em que diz ter sido exposto a produtos químicos em um galpão de treinamento. “Eu falo rouco por conta de ser jogado dentro de um produto químico no Corpo de Bombeiros no Cia, onde ligavam gerador botando fumaça. De lá eu saí direto para uma UTI no Jaar Andrade, onde passei mais de 11 dias sumido, desaparecido”, relatou o parlamentar durante a transmissão.
Transferências e pressão psicológica
No relato prestado nesta sexta-feira, Isidório descreveu ter sido transferido do hospital diretamente para custódias em batalhões militares, incluindo passagens pelo Pelotão Águia e pelo Alto de Ondina. Segundo o parlamentar, além de ter sido levado ao Hospital Juliano Moreira sob a ameaça de aplicação de sedativos fortes, sofria coação psicológica contínua no cárcere.
“Pela noite eles apagavam as luzes às 12 horas e começavam os disparos de metralhadora, as rajadas de metralhadora”, relembrou, destacando a presença de outros oficiais jovens na mesma cela. “Não tô falando dessa polícia de agora, tô falando daqueles do passado. O ex-comandante Magalhães descia do seu comando para vir ficar no meio da tropa. Fui preso sem ordem judicial dentro da minha casa, na frente das minhas duas filhas e da minha esposa.”
Apesar das marcas que relata carregar, o deputado citou ter obtido pareceres favoráveis no âmbito militar quanto às correções de sua carreira e promoção de posto. A projeção política conquistada após o movimento de 2001 impulsionou a entrada de Isidório na vida pública, elegendo-se deputado estadual em 2002 e consolidando-se, ao longo das últimas duas décadas, como uma das figuras mais votadas do eleitorado baiano.