Após o candidato do PL acusar a Igreja de articular com o PT uma notícia falsa sobre a perda do título de padroeira do Brasil, a entidade episcopal divulgou nota oficial a reiterar o apartidarismo, a exigir provas e a condenar a instrumentalização eleitoral da fé.
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) emitiu uma contundente nota de esclarecimento em resposta directa às declarações do candidato à Presidência da República pelo Partido Liberal (PL), Flávio Bolsonaro. Durante uma acção de campanha realizada em Goiânia, o senador atribuiu a sectores internos da entidade católica uma suposta articulação com o Partido dos Trabalhadores (PT) para disseminar uma notícia falsa que o acusava de tentar revogar o título oficial de “Padroeira do Brasil” conferido a Nossa Senhora Aparecida. Ao repudiar as alegações, o organismo episcopal negou qualquer envolvimento com estruturas partidárias ou redes de desinformação e sentenciou: “A mentira não se combate com outra mentira”.
No documento oficial divulgado pela sua assessoria de comunicação em Brasília (NUP 00000.9.005441/2026), a instituição declarou que “não produziu, autorizou ou participou da elaboração ou divulgação de informações falsas relacionadas ao atual processo eleitoral”. A entidade máxima da Igreja Católica no país sublinhou o seu repúdio integral à produção e difusão de desinformação, “independentemente de sua origem ou de quem possam beneficiar ou prejudicar”, reforçando a sua postura de independência.
“A CNBB não integra qualquer estrutura político-partidária, de partido ou candidatura. Suas manifestações sobre as eleições decorrem de sua missão pastoral e de princípios públicos expressos em seus documentos, orientados pela dignidade humana, pelo bem comum, pela democracia e pela liberdade de consciência”, frisou a nota episcopal.
A conferência advertiu ainda para os prejuízos institucionais decorrentes de ataques sem sustentação no debate público. “Atribuir à CNBB participação em estruturas de produção ou disseminação de desinformação, sem fatos e provas que sustentem tal afirmação, atinge injustamente a instituição e não contribui para a serenidade e a responsabilidade que devem caracterizar o processo eleitoral”, alertou o organismo, reafirmando o seu compromisso inegociável com “a verdade, o diálogo e a paz”.
A controvérsia teve início com a circulação viral nas redes sociais de publicações que associavam erradamente Flávio Bolsonaro a um projecto de lei concebido para retirar a consagração histórica de Nossa Senhora Aparecida, oficializada como feriado nacional pela Lei Federal nº 6.802 de 1980. Na realidade, a matéria em causa correspondia ao antigo Projeto de Lei nº 2.623/2007, de autoria do ex-deputado e pastor evangélico Professor Victório Galli, proposta arquivada há anos na Câmara dos Deputados que pretendia alterar a designação para “Padroeira dos Brasileiros Católicos Apostólicos Romanos”, sem qualquer ligação à actividade parlamentar do candidato do PL.
O boato ganhou projecção nacional após ter sido mencionado durante uma análise televisiva em canal por assinatura — abordagem que foi rectificada pela própria emissora pouco depois —, passando a ser partilhado por militantes e dirigentes de esquerda. Em reacção pública durante o comício em Goiás, Flávio Bolsonaro atacou duramente os adversários e a instituição religiosa: “A maior fake news da campanha foi essa sobre Nossa Senhora Aparecida (…). E o PT, eu sei hoje, já estava havia alguns dias tentando levantar essa fake news, conseguiu com a ajuda de gente de dentro da CNBB, infelizmente essa realidade”, declarou o parlamentar.
O episódio aprofundou a disputa pela preferência do eleitorado religioso na recta final da campanha presidencial de 2026, levando tanto a coordenação de Flávio Bolsonaro como a do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a intensificar mensagens públicas de preservação das tradições cristãs, enquanto decisões judiciais no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e no Supremo Tribunal Federal (STF) procuram conter o avanço de notícias falsas sobre o tema nas plataformas digitais.
Veja a nota na íntegra:
