Estratégia busca ampliar espaço da oposição em estados considerados estratégicos para o lulismo e reduzir vantagem de Lula em eventual segundo turno
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, tem orientado aliados a atuarem para fortalecer as candidaturas de oposição ao PT na Bahia e no Ceará. A estratégia inclui apoio à candidatura de ACM Neto (União Brasil) ao governo baiano e de Ciro Gomes (PSDB) ao Palácio da Abolição.
A informação foi repassada ao bahia.ba, sob condição de anonimato, por um aliado próximo à família Bolsonaro. De acordo com o relato, Flávio avalia que eventuais derrotas dos governadores Jerônimo Rodrigues (PT), na Bahia, e Elmano de Freitas (PT), no Ceará, poderiam representar um revés político para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em dois estados tradicionalmente favoráveis ao petismo.
A avaliação dentro do grupo é que a vitória de candidatos de oposição poderia alterar o comportamento político de prefeitos e lideranças do interior durante um eventual segundo turno presidencial.
Estratégia mira segundo turno presidencial
A aposta de Flávio é que ACM Neto e Ciro Gomes, caso eleitos, tenham capacidade de atrair prefeitos e lideranças locais para uma composição mais distante de Lula na segunda etapa da disputa presidencial.
Na Bahia, onde o presidente historicamente registra forte desempenho eleitoral, a conquista do governo estadual pela oposição poderia dificultar a articulação política do PT em torno da candidatura de Lula.
Por isso, segundo o aliado ouvido pela reportagem, o PL não estaria tratando como prioridade os movimentos de Neto e Ciro que permitem a seus eleitores optar por um eventual voto conjunto com Lula.
A lógica seria evitar que uma postura explicitamente contrária ao presidente prejudique as candidaturas estaduais de oposição em regiões onde Lula mantém forte influência eleitoral.
João Santana comanda campanhas de Neto e Ciro
Outro ponto de convergência entre as duas disputas estaduais está no marketing. O jornalista baiano João Santana, que participou da campanha presidencial de Lula em 2006, atua nas estratégias eleitorais de ACM Neto e Ciro Gomes.
Na Bahia, a comunicação da campanha de Neto passou a explorar a possibilidade do chamado voto “Luleto”, combinação entre os nomes de Lula e Neto. A estratégia procura dissociar a preferência pelo presidente da escolha pelo candidato do União Brasil ao governo estadual.
A campanha também tem recorrido a influenciadores digitais para ampliar a circulação dessa mensagem nas redes sociais.
O PT, entretanto, contesta a estratégia e já levou o tema à Justiça Eleitoral. Os petistas sustentam que Jerônimo Rodrigues é o principal aliado de Lula na Bahia e, portanto, deveria concentrar a associação eleitoral entre o presidente e a disputa pelo governo estadual.
Aliados de Neto, por sua vez, afirmam que o “Luleto” representa um movimento espontâneo entre eleitores.
PT tenta associar Neto ao bolsonarismo
Diante da estratégia da oposição, o PT passou a reforçar na propaganda eleitoral a associação entre ACM Neto e o bolsonarismo.
A campanha de Jerônimo tem explorado alianças de Neto com integrantes da direita e resgatado declarações feitas pelo candidato do União Brasil durante sua trajetória política. Entre os episódios lembrados está uma fala de cerca de duas décadas atrás, quando Neto afirmou que daria “uma surra” em Lula.
A tentativa é consolidar junto ao eleitorado a imagem de Neto como um candidato contrário ao presidente, dificultando a construção de uma candidatura capaz de atrair simultaneamente eleitores de Lula e da oposição.
Bolsonaristas evitam colar Flávio a Neto
Enquanto o PT tenta aproximar Neto do bolsonarismo, setores ligados à própria direita baiana adotam movimento inverso.
Aliados de Jair Bolsonaro têm buscado evitar que a imagem da família Bolsonaro seja diretamente vinculada à campanha de ACM Neto, sobretudo em regiões onde o eleitorado lulista é predominante.
O ex-ministro João Roma (PL), candidato ao Senado na chapa de oposição, é um dos exemplos dessa estratégia. Nos palanques ao lado de Neto, Roma evita concentrar seus discursos no pedido de votos para Flávio Bolsonaro.
A postura, contudo, não é uniforme em todo o estado. Em municípios do oeste e do sul da Bahia, onde o bolsonarismo possui maior presença eleitoral, a aproximação com a família Bolsonaro tende a ser mais explícita.