Diálogos e áudio revelados pelo Intercept Brasil mostram o senador e pré-candidato à Presidência cobrando pagamentos ao banqueiro para produção de filme sobre o pai, Jair Bolsonaro. Vorcaro chegou a pagar R$ 61 milhões e foi preso pela PF.
As mensagens e o áudio trocados entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, foram divulgados nesta quarta-feira (13) pelo portal Intercept Brasil. As conversas revelam que o parlamentar pressionava Vorcaro para que ele bancasse a produção de um filme biográfico sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) – o que o banqueiro fez, pagando R$ 61 milhões entre fevereiro e maio de 2025.
Na troca de mensagens, que ocorreram entre setembro e novembro de 2025, os dois se tratam como irmãos. Flávio Bolsonaro chama Vorcaro de “irmãozão”, “mermão” e declara: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente”. O banqueiro, por sua vez, se refere ao senador como “irmão” e “irmaozao”.
A proximidade foi usada pelo senador para cobrar pagamentos ao filme, intitulado “Dark Horse”. Em áudio enviado a Vorcaro, Flávio diz que está “num momento muito decisivo aqui do filme e como tem muita parcela pra trás”. Ele pede uma posição do banqueiro porque “tem muita conta para pagar esse mês e o mês seguinte também” e teme que o não pagamento gere um “efeito contrário”, o que seria “muito ruim”.
As pressões se intensificaram em 22 de outubro de 2025, quando Flávio avisou Vorcaro: “Já estamos no terceiro dia de gravação. Estamos no limite”. No mesmo dia, o senador convidou o banqueiro para um jantar com o ator Jim Caviezel, que interpreta Jair Bolsonaro no filme, e com o diretor Cyrus Nowrasteh. Vorcaro aceitou e propôs que o encontro fosse em sua casa.
O receio de Flávio era que o não cumprimento das obrigações financeiras pudesse arruinar a produção. Em mensagem de 7 de novembro, ele enviou um vídeo a Vorcaro com a seguinte observação: “Tá perdendo, irmão! Tudo isso só está sendo possível por causa de vc!”
Vorcaro foi preso pela Polícia Federal no dia 17 de novembro de 2025, no Aeroporto de Guarulhos, quando tentava embarcar para Dubai. Ele é acusado de chefiar um esquema bilionário de fraudes financeiras que podem chegar a R$ 12 bilhões. No dia anterior à prisão, Flávio ainda trocava mensagens com ele, reafirmando lealdade: “Irmão, estou e estarei contigo sempre” e pedindo “uma luz” sobre os pagamentos.
Posicionamento de Flávio Bolsonaro
Procurado por jornalistas ao sair do Supremo Tribunal Federal (STF) nesta quarta-feira, o senador disse se tratar de “dinheiro privado”. Mais tarde, divulgou um vídeo em que confirma ter pedido dinheiro a Vorcaro, mas nega irregularidades, afirmando não ter “relações espúrias” com o banqueiro, e voltou a defender a instalação de uma CPI do Banco Master.
Em nota, sua assessoria afirmou que o encontro com Caviezel foi “estritamente profissional” e que o filme não tem conotação política, tratando-se de “um documentário sobre a trajetória de vida do ex-presidente, com recursos obtidos por meio de financiamento coletivo e de parcerias privadas, todas devidamente formalizadas”. A nota também diz que Flávio “nunca recebeu nenhum valor pessoalmente de Daniel Vorcaro”.
A revelação das mensagens e do áudio ocorre a menos de cinco meses das eleições presidenciais, nas quais Flávio Bolsonaro é pré-candidato. O episódio tem o potencial de agravar os efeitos do escândalo do Banco Master sobre sua campanha, já que expõe o contato direto e o tratamento pessoal que o parlamentar mantinha com o banqueiro, que hoje está preso.
