O presidente da Câmara Municipal de Teixeira de Freitas, Jonatas dos Santos (MDB), é um dos nomes mencionados em relatos sobre as visitas do ex-deputado federal Uldurico Júnior (PSDB) a unidades prisionais na Bahia. Segundo depoimento da ex-diretora do Conjunto Penal de Eunápolis, Joneuma Silva Neres, ao menos cinco pessoas acompanharam o político em encontros com líderes de facções criminosas.
De acordo com Joneuma, que atuava no presídio localizado no extremo sul do estado, as visitas incluíam reuniões com internos e teriam ocorrido em ambientes reservados. O ex-deputado é apontado como suspeito de participação em um esquema que teria contribuído para a fuga de 16 detentos em dezembro de 2024. As informações vieram à tona por meio de um acordo de delação premiada firmado com o Ministério Público da Bahia (MP-BA), após ela permanecer mais de um ano presa.
A ex-diretora relatou que os encontros eram feitos “de portas fechadas” e considerados “normais” dentro do contexto apresentado. Ainda conforme seu depoimento, Uldurico teria negociado um montante de R$ 2 milhões para integrar o plano, recebendo inicialmente R$ 200 mil. O valor teria sido pago em dinheiro vivo, acondicionado em caixas de sapato, além de transferências via PIX.
Entre os cinco nomes citados por Joneuma, dois foram alvos de mandados de busca e apreensão durante as investigações, enquanto os outros três apenas foram mencionados, sem indicação direta de envolvimento nas negociações. São eles:
- Alberto Cley Santos Lima (PSD), conhecido como Cley da Autoescola e candidato a vereador em Eunápolis em 2024 — alvo de mandado
- Matheus da Paixão Brandão, ex-secretário parlamentar de Uldurico na Câmara Federal — alvo de mandado
- Jonatas dos Santos (MDB), vereador de Teixeira de Freitas e presidente da Câmara Municipal — citado
- David Loyola, secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia de Teixeira de Freitas — citado
- Clebson Porto, advogado — citado
Jonatas dos Santos e Clebson Porto afirmaram, ao g1, que estiveram com Uldurico em apenas uma ocasião no presídio, no dia da posse de Joneuma como diretora da unidade. Ambos disseram ainda que não tiveram qualquer contato com detentos nessa visita.
Reuniões privadas com detentos
Além dos nomes que acompanhavam o ex-deputado, o depoimento também menciona internos que teriam participado das reuniões. Entre eles estão “Ednaldo”, conhecido como Dada e apontado como líder do Primeiro Comando de Eunápolis (PCE); “Sirlon”, o “Saguin”, identificado como sub-líder; além de “Luquinhas”, “Juan Pablo” e “Cascão”, descritos como representantes de alas dentro da unidade.
A delação, assinada em 9 de fevereiro, detalha ainda o papel de Joneuma no suposto esquema. Ela afirmou ter sido ameaçada por Uldurico para manter silêncio sobre os fatos, e que ambos teriam combinado uma versão em comum para suas defesas.
Segundo relato ao MP-BA, Joneuma conheceu o ex-deputado enquanto trabalhava na unidade prisional de Teixeira de Freitas, onde exercia função administrativa. Na ocasião, ele já teria influência na indicação de diretores para o presídio.
Posteriormente, em 14 de março de 2024, ela foi nomeada diretora do Conjunto Penal de Eunápolis. No dia seguinte à posse, Uldurico teria comparecido ao local acompanhado de diversas pessoas, incluindo Alberto Cley Santos Lima.
Seguindo um padrão semelhante ao adotado em Teixeira de Freitas, o ex-deputado teria solicitado reuniões com chefes de facções custodiados na unidade. Joneuma relatou que atendeu ao pedido por se sentir pressionada.
Ela afirmou ainda que, cerca de uma semana depois, o político retornou ao presídio com o mesmo grupo para novos encontros com os internos.
Já em 14 de outubro de 2024, após perder a eleição para prefeito de Teixeira de Freitas, Uldurico teria voltado a Eunápolis e intensificado a pressão para ter contato com Dada. Conforme o depoimento, o objetivo seria obter recursos financeiros com urgência para quitar dívidas e prestar contas, contexto em que teria ocorrido a negociação da fuga dos detentos.
