Salvador, 11/01/2026 14:28

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DAS RUAS E REDES RUMO ÀS URNAS: AS ELEIÇÕES, SEUS LIMITES E OS DESAFIOS DA JUVENTUDE NEGRA RURAL NO PÓS EXTREMA-DIREITA FASCISTA

Foto: Redes Sociais
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Por: Marcolino Vinícius Quilombola

O que você faria se descobrisse, com meses de antecedência, que dentro da sua própria casa existe alguém disposto a abrir a porta para que tudo o que você ama seja entregue, saqueado e destruído?
Não por acaso. Não por ingenuidade. Mas por projeto.

O lar, que deveria ser abrigo, torna-se armadilha quando quem mora nele passa a agir contra os próprios moradores. É assim que se perde a casa. É assim que se perde um país.

E é exatamente isso que está em disputa nas eleições de 2026.
Não se trata de uma eleição comum. Trata-se de mais um capítulo de uma longa história.

Porque é preciso dizer a verdade histórica que muitos tentam esconder:
o Brasil nunca foi um país de povoamento. Sempre foi um país de exploração.

Basta olhar para a história da América Latina. Desde a colonização, fomos tratados como quintal dos países ditos de “primeiro mundo”. Um quintal onde se vinha buscar ervas para curas, águas para hidratação, terras férteis para plantar e colher o melhor. Um território usado para extrair ouro, minérios, energia, conhecimento e vidas. As riquezas que hoje sustentam o alto nível tecnológico e o conforto dessas nações foram, em grande parte, sugadas daqui.

O Sul Global sempre foi visto como espaço de saque.
E o Brasil lutou — e ainda luta — para deixar de ser quintal.

Nas últimas décadas, o país passou a tentar romper com a vocação que lhe foi imposta: a de nação subalterna, subserviente, colonizada, escravizada, provedora dos de fora. Um país que começa a buscar soberania incomoda. E muito.

É por isso que as eleições de 2026 não são apenas eleitorais.
São um novo campo de batalha.

A história mostra que o Brasil já enfrentou guerras políticas semelhantes. Nos anos 1960, quando um projeto popular foi interrompido à força. Nos anos 1980, quando a democracia precisou ser reconquistada com organização, mobilização e coragem. Agora, nos anos 2000, vemos se repetir um cenário que poderia ter sido evitado se a vigilância nunca tivesse cessado.

O contexto internacional mudou. As forças externas mudaram de estratégia, mas não de objetivo. Influenciar eleições, controlar narrativas, enfraquecer projetos populares e garantir que o Brasil continue cumprindo o papel de fornecedor barato de riquezas e mão de obra.

E hoje essa guerra não acontece apenas nas ruas.
Ela acontece nos celulares.
Nos algoritmos.
Na desinformação em massa.

Plataformas digitais, concentradas nas mãos de grandes corporações alinhadas a interesses externos, serão usadas nos momentos decisivos para virar votos, espalhar medo e confusão, especialmente entre os mais vulneráveis. É assim que se abre a porta da casa por dentro.

Mas a história também ensina outra coisa:
nenhuma conquista veio sem organização de base.

O aprendizado deixado para nós é claro. A juventude de agora terá um papel decisivo. Criar jornadas de ação cotidianas, com nucleação nos espaços de morar, estudar, trabalhar, viver a fé e ocupar o lazer. Reconectar o mundo digital com o mundo real. Resgatar a memória das estratégias e táticas que garantiram conquistas nas décadas de 60 e 80 para enxergar o presente com mais nitidez e deixar legado para quem vem depois.

A próxima geração precisa receber mais do que alertas. Precisa receber ferramentas.
Ferramentas para enfrentar o fascismo, suas narrativas e suas tecnologias com mais efetividade. Para manter as bases já conquistadas e ampliá-las todos os dias.

Até que chegue o tempo em que o Brasil alcance soberania alimentar, soberania hídrica, soberania espiritual e soberania territorial.
Para que nossos inimigos de classe nunca mais vençam como venceram tantas vezes no passado.

Nada está dado.
Nada está garantido.

A história não acabou.
E a casa ainda pode ser defendida.

Defender nossa casa é a tarefa eleitoral de 2026. Ao defendê-la, defenderemos também nossas ruas, nossos bairros, nossos municípios e nossos estados. Assim, estaremos protegendo a soberania federativa brasileira, que começa no território vivido e se expressa no projeto de nação. O voto, por si só, precisa ser conquistado a todo tempo, mas é a consciência política que sustenta o voto e dá sentido a ele. Mais do que disputar eleições, trata-se de disputar corações, mentes, pessoas e famílias para um projeto soberano de país, anticolonialista e antifascista, onde o Brasil deixe definitivamente de ser quintal e passe a ser dono do seu próprio destino, com o perigo deles contra nós, sob nosso próprio controle, custe o que custar.

*Vinicius Marcolino Quilombola, é Poeta Ancestral Quilombola, de Matriz Africana do Ilê Alaketú Asè Olufon Dey, Coordenador Nacional da CONAQ, Conselheiro Nacional no Governo Lula pelo CONJUVE e Gestor Público com formação em orçamento público pela UFPR

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