A Polícia Federal (PF) e a Controladoria-Geral da União (CGU) apontou que um empresário com fortes articulação política estaria por trás da exploração ilegal de minério de ferro na Serra do Curral, ao sul de Belo Horizonte. Em março, uma operação encontrou uma série de documentos e decretou o sequestro de R$ 832 milhões, valor equivalente ao prejuízo causado pela operação ilegal de mineração que usava um plano de recuperação ambiental como fachada.
Reportagem da Veja mostrou que a investigação revelou “robustos indícios de que servidores graduados da Agência Nacional de Mineração (ANM) receberam propinas milionárias para favorecer a Empabra, responsável pela Mina Granja Corumi, onde teria ocorrido a atividade ilegal até 2018, apesar de a prática estar proibida na região desde 1990, quando a serra foi tombada como patrimônio histórico do município”.
Como aponta a matéria, a Empabra explorou a mina legalmente de 1958 até o tombamento. Em 2008, os donos da empresa, Juarez de Oliveira Rabello, João Henrique Pereira e André Mauricio Ferreira, fizeram um PRAD (plano de recuperação da área degradada), que lhes permitia retirar o minério já extraído e estocado na mina, com o compromisso de recuperar a região.
Em 2012, a situação muda com a entrada de três empresários no negócio: Lucas Prado Kallas, Luis Fernando Franceschini e Bruno Luciano Henriques. Em depoimentos à PF, Rabello e Pereira disseram que Kallas e Franceschini “queriam que houvesse retirada de maior quantidade de minério, em desacordo com o PRAD”.
A Polícia Federal indicou que, a partir de 2014, “análises periciais e de auditoria confirmam integralmente os fatos narrados”. “Sobressai das investigações que as irregularidades apontadas pelos trabalhos periciais coincidem com o período em que Lucas Kallas, Bruno Luciano e Franceschini assumem a Mina Corumi”, diz trecho da decisão judicial que autorizou a recente operação em março.
A PF apontou que um dos agentes da ANM, ligada ao Ministério de Minas e Energia, recebeu propina. Segundo a Veja, Leandro César Ferreira de Carvalho, que era gerente regional da ANM em Minas, e o outro, Claudinei Oliveira Cruz, ex-superintendente substituto em segurança de barragens de mineração. O Coaf apontou que ambos movimentaram mais de R$ 3 milhões em contas deles e das esposas – o montante era incompatível com a renda deles. Após a operação, eles foram demitidos da ANM em 1º de abril.
Dentre os investigados, aponta Revista Veja, Lucas Kallas é o personagem mais conhecido. “Dono de um império da mineração, a Cedro Participações, ele e suas empresas têm atuação em vários negócios bilionários. Em fevereiro, por exemplo, a companhia arrematou a concessão do Porto de Itaguaí (RJ), por 3,6 bilhões de reais. Meses antes, em dezembro, a Cedro também havia vencido a concessão para construir uma malha ferroviária que liga Minas Gerais a esse porto por 1,5 bilhão de reais”, aponta a revista.
Kallas recebeu, na ocasião, elogios do presidente Lula: “Desde que ele foi levado à minha sala (…), eu descobri na hora que estava conversando com um empresário sério, com um empresário com uma visão nacional muito interessante, que antes de tudo ama o Brasil”, disse Lula. Kallas integra o Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, o Conselhão, que assessora o presidente da República.
Kallas já foi agraciado por outros políticos com relevância nacional. O governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) o condecorou com a Medalha da Inconfidência (em 2023) e a Medalha do Dia do Estado de Minas (2024). Nas duas últimas eleições, por meio da sua irmã, Francine Kallas, o grupo doou mais de 2 milhões de reais ao PSD, partido do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira.
Em 2024, Kallas apresentou queixa-crime contra o candidato a prefeito Bruno Engler (PL), que disse que as doações seriam para garantir a “leniência” da gestão municipal com a exploração na Serra do Curral. Em 2008, Kallas, que era dono de uma construtora, foi preso na Operação João de Barro, da PF, que investigou o desvio de recursos do PAC — o empresário ainda responde a duas ações de improbidade administrativa por conta dessa investigação.
Kallas enviou à Revista Veja uma resposta
Sobre a Operação Parcours, Lucas Kallas esclarece que não é “sócio proprietário” da mineradora EMPABRA. Apenas foi sócio investidor em uma empresa que celebrou com a EMPABRA contratos de compra e venda de finos de minério. Lucas se desligou desse negócio formalmente em maio de 2018.
Em todo o tempo que figurou como investidor, as atividades se mostraram regulares em seus aspectos minerários e ambientais, com diversos relatórios de fiscalização de órgãos federais, estaduais e municipais. Lucas nunca ocupou cargos de diretoria da Empabra ou atuou como responsável técnico nos documentos apresentados.
Todos os fatos anteriores a 2021 já foram objeto de outra investigação da Polícia Federal (nº judicial 1010003-43.2021.4.01.3800), que se encontra arquivada e baixada, com a concordância do Ministério Público Federal, que não vislumbrou nem sequer indícios de irregularidades para o oferecimento de uma denúncia. Lucas Kallas nunca teve qualquer relação com os servidores da ANM citados.
Lucas foi indevidamente incluído nessa nova investigação relacionada a fatos ocorridos principalmente nos anos de 2023 a 2025, quando já estava afastado há 8 anos do quadro de investidores, mas confia que tudo será oportunamente esclarecido nas vias adequadas.
Sobre a operação João de Barros, de 2008, os fatos já foram devidamente esclarecidos nas vias judiciais. As ações criminais foram encerradas, com total reconhecimento de inocência.
Lucas Kallas é um empresário brasileiro e, como qualquer grande empreendedor, possui relações de caráter estritamente profissional com personalidades públicas, de todos os espectros ideológicos. O interesse de Lucas sempre será o desenvolvimento do país e, para isso, ele tem feito investimentos importantes para o Brasil.
Lucas não tem nada a comentar sobre as doações da Francine Prado Kallas. Foram de cunho pessoal, de acordo com as convicções políticas dela.
