Salvador, 01/05/2026 03:09

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Belo Sun pede prisão de manifestantes que se opõem à maior mina de ouro do Brasil

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A mineradora canadense Belo Sun pediu ao Tribunal do Estado do Pará que prendesse 40 manifestantes e membros de organizações ambientais que se opõem ao seu plano de estabelecer a maior mina de ouro a céu aberto do Brasil. Planejado para a região conhecida como Volta Grande do Xingu, no Pará, o projeto é cercado de críticas pelos riscos ambientais e pela forma como a empresa obteve terras do Governo Federal para implantar a mina.

O pedido de prisão foi protocolado em outubro passado, mais de um ano depois 50 manifestantes montaram acampamento em um reforma agrária área que havia sido repassada à mineradora pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA).

“Enfrentamos ameaças diárias pelo simples fato de não concordarmos com esse projeto mortal de abertura da maior mina de ouro a céu aberto no meio da Amazônia”, disse o agricultor Amilson Cardozo, ex-candidato à Câmara Municipal de Parauapebas em a chapa do Partido dos Trabalhadores e um líder do campo da ‘Nova Aliança’, que desafia a transferência de terras federais para Belo Sun.

A área em disputa está inserida no Projeto de Assentamento Ressaca, criado há mais de 20 anos para abrigar 600 famílias de agricultores entre os municípios de Altamira e Senador José Porfírio, no norte do Pará. O local fica próximo à Volta Grande do Xingu, área já afetada pela hidrelétrica de Belo Monte.

Em 2021, o assentamento foi desmembrado pelo INCRA e parte dele foi transferido para Belo Sun, que também recebeu outras áreas federais da região para implantação da mina de ouro. No total, foram transferidos para a empresa 2.428 hectares de terras federais.

Na notificação criminal protocolada na Vara Senador José Porfírio, onde fica o empreendimento minerário, Belo Sun acusa os manifestantes de ‘invasão criminosa’, o que pode resultar em 6 meses a 3 anos de prisão. Entre os acusados ​​pela mineradora estão Antônia Melo da Silva, chefe do Movimento Xingu Vivo, Brent Millikan, ex-diretor da ONG International Rivers, e Ana Paula Vargas, diretora da Amazon Watch.

Pesquisadores alertam que o projeto pode causar impacto ambiental comparável aos desastres de Brumadinho e Mariana, em Minas Gerais.

Em sua moção inicial, Belo Sun também pede “a identificação e divulgação de registros bancários de ONGs e movimentos sociais e seus representantes para mostrar como o movimento criminoso de vigilantismo fundiário é financiado”.

Cardozo disse que ocuparam a área porque foi destinada à reforma agrária e porque o projeto apresenta elevados riscos ambientais. Segundo site da empresa que não está mais operacional, o empreendimento tem como objetivo produzir 5 toneladas de ouro por ano.

“Somos trabalhadores rurais; vivemos da terra e não podemos permitir que o INCRA ceda as terras que foram destinadas à reforma agrária a uma mineradora canadense. Não podemos ser cúmplices do desastre ambiental iminente que ocorrerá se este projecto for implementado”, acrescentou.

Além de perseguir os colonos, o projeto Belo Sun também atinge terras indígenas como Arara, na Volta Grande do Xingu, e Paquiçamba (Foto: FUNAI)

‘Intimidação’

Ativistas e organizações entrevistadas por Repórter Brasil dizem que as ações da empresa buscam criminalizar os movimentos sociais.

“Há pessoas acusadas nesta queixa-crime que nem sequer se conhecem, mas é mais um passo na estratégia de estabelecer domínio nesta área. Nenhum crime é descrito porque não há intenção de invasão. A Belo Sun não detém controle ou propriedade sobre a área”, afirmou a assessora jurídica da Amazon Watch Ana Alfinito.

Alvo de Belo Sun, o ex-diretor da ONG International Rivers Brent Millikan acredita que a empresa está tentando praticar intimidação. “É uma forma de desviar a atenção (do projeto), como diz aquele velho ditado que diz que a melhor defesa é o ataque. Mas este é um ataque infundado num contexto em que as suas ações são indefensáveis”, disse ele. Repórter Brasil.

Millikan não é diretor da ONG desde junho de 2021 – um ano antes da ocupação criticada pela empresa. Mas ele vê as exigências dos agricultores como legítimas. “Não foi um movimento que visava apropriar-se da propriedade privada. Eram agricultores familiares, clientes da reforma agrária que protestavam contra a apropriação indébita de território destinado à reforma agrária. Foi uma ação absolutamente legítima. É importante contextualizar”, afirmou.

Amazon Watch, também alvo de Belo Sun, está coletando assinaturas em uma petição para apoiar “movimentos sociais, organizações e defensores de direitos vítimas de tentativa de criminalização por parte de Belo Sun.”

Procurada, a Belo Sun afirmou que “tem feito tudo de acordo com a lei” e disse que apenas sugeriu “prisões que sejam necessárias em caso de flagrante delito”.

“Há liminar reconhecendo o ato ilícito, ou seja, a existência de trespasse criminoso, e determinando a reintegração de posse em favor da empresa – decisão que não foi alterada até o momento”, diz a nota da empresa, acrescentando que o processo de a reintegração de posse judicial permanece ativa, aguardando decisão final sobre o mérito (veja o comunicado completo).

Acampamento Belo Sun no sítio do ‘Projeto Volta Grande’, no Pará (Foto: Divulgação)

‘Sinais de fraude’

Quando mais de 50 agricultores com apoio de indígenas e ribeirinhos contrários ao projeto ocuparam a área, a Defensoria Pública do Estado e a Defensoria Pública da União já haviam ajuizado ação civil pública contra Belo Sun na qual apontaram indícios de ilegalidades na transferência de terras federais para a empresa.

Segundo a Defensoria Pública, antes mesmo de receber o terreno do INCRA, a Belo Sun havia adquirido lotes no Projeto de Assentamento Ressaca entre 2012 e 2016. No Brasil, comprar e vender lotes de reforma agrária é ilegal.

Durante o governo Jair Bolsonaro, após supostamente adquirir esses lotes de assentados, o INCRA concedeu à Belo Sun uma concessão de 2.428 hectares (24 quilômetros quadrados) na região da Volta Grande do Xingu, trecho do rio Xingu localizado logo após a barragem de Belo Monte. . Pelo contrato, assinado em 26 de novembro de 2021, o INCRA terá participação direta nos lucros da Belo Sun.

Os defensores públicos obtiveram documentos que mostram que a Belo Sun adquiriu, na prática, um total de 3.495 hectares, indicando “fortes indícios de fraude” segundo a ação, uma vez que transferências de terras a estrangeiros superiores a 2.500 hectares devem ser aprovadas pelo Congresso.

A transferência também é analisada pelo Tribunal de Contas da União (TCU) desde o final de 2021. Relatório do departamento técnico do Tribunal obtido por Repórter Brasil mostra que também suspeitava de ilegalidades na transferência de terras para a Belo Sun. Por isso, cobrou esclarecimentos do INCRA e da Agência Nacional de Mineração (ANM).

“Os fatos indicam que, diante da negociação irregular dos lotes, o INCRA buscou conferir validade jurídica à posse da área pela Belo Sun por meio do Contrato de Concessão de Uso firmado, favorecendo a empresa em detrimento dos assentados que foram excluídos da Lista de Beneficiários da Reforma Agrária ”, diz o relatório do Tribunal de Contas. O INCRA não respondeu aos pedidos de esclarecimentos.

Populações indígenas e ribeirinhas do Pará já sofrem com os impactos socioambientais causados ​​pela construção da barragem de Belo Monte, no rio Xingu (Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real)

Reintegração de posse

Além de tomar medidas legais contra os críticos, a mineradora também tenta fazer com que a polícia imponha a reintegração de posse da área ocupada pelos manifestantes. No ano passado, um juiz concordou com o afastamento dos ativistas, mas determinou que fosse tentada uma solução amigável pela comissão de conflitos fundiários do Tribunal de Justiça do Pará, o que não foi feito até o momento.

Ao tentar avançar na extração de ouro, a mineradora canadense sofreu uma derrota jurídica em setembro passado, quando o Primeiro Tribunal Regional Federal negou um recurso e forçou o órgão ambiental brasileiro IBAMA a assumir o licenciamento ambiental do projeto de mineração na Volta Grande do Xingu.

Antes da denúncia criminal contra os manifestantes, Belo Sun tentou uma ‘solução amigável’, segundo Clóvis Osmar Perleberg, um dos integrantes do acampamento Nova Aliança.

“Um advogado e um funcionário da empresa vieram ao acampamento propor uma solução amigável para que não enfrentássemos a vergonha de sermos expulsos pela polícia. Mas eles estão jogando duro e usando todos os truques para nos tirar da área”, afirmou.

A empresa afirmou em comunicado que o processo de licenciamento é realizado “de acordo com as leis, regulamentos e decisões judiciais”. “A empresa obteve a licença ambiental prévia em 2014 e a licença de instalação em 2017. Ainda em 2017, a licença ambiental prévia foi suspensa e condicionada à aprovação do plano ambiental básico do componente indígena pela FUNAI e pelo órgão licenciador ambiental competente. O plano foi apresentado à FUNAI em março de 2023 e a empresa vem trabalhando no assunto junto ao órgão desde então.”

A nota diz ainda que a licença ambiental definitiva está sendo discutida com o IBAMA, “o Primeiro Tribunal Regional Federal reafirmou que as licenças emitidas no passado pela SEMAS permanecem em vigor e que a empresa não precisará reenviar seus pedidos dessas licenças para IBAMA” (veja a nota na íntegra).

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